Pés adormecidos sobre a almofada rasgada. Nas mãos, uma edição
passada de um jornal que encontrara dentro da gaveta. Poesia nenhuma naquele
emaranhado de cores e bundas e sangue. Um caso de estupro, um de homicídio e o
extra terrestre que encontraram no interior de algum estado. Queimou letra por
letra, com o isqueiro Bic vermelho que não era seu. O gosto de malte da noite passada voltava a
incomodá-lo. Os sons que mais cedo
passavam por perto da porta estavam diminuindo, assim como a luz, que agora
entrava apenas pelo vidro rachado da janela. Dormiu.
Ela fumava seu quinto maço em menos de dois dias. As pernas não
ficavam estanques, tremiam em qualquer posição que estivesse. Pintou de preto
as unhas roídas, trancou a casa e gritou pelo filho. O garoto amarrou o tênis,
pela primeira vez sem ajuda, e seguiu os passos da mãe. Estalando os dedos, ela
se esqueceu da manutenção dos fins de semana e esperou o elevador por dois
cigarros. Desceu, devagar, as luzes não se ascendem domingo de madrugada. A
televisão da guarita falava pra ninguém, o porteiro estava submerso no seu sono
e em alguns casacos de moletom.
- Seu Avelino? – sussurrou para não assustá-lo, mas não foi
atendida e aumentou o tom – Seu Avellino, Por favor!
- O que quer saindo de casa a essa hora com o menino, dona Fátima?
Está tudo deserto, é perigoso. A senhora tá bem?
- Estou bem, só preciso sair daqui, faça-me o favor de abrir a
porta.
Nunca mais se viram.
