domingo, 6 de junho de 2010

Abri a janela e expus meu peito ao frio rachante. O pulmão reclamou, dei aquele espirro dolorido que prever um resfriado. Cobri a janela com a cortina, sem fechá-la totalmente, para evitar a entrada de luz e permitir a do ar gelado. Sentei de modo que a corrente diretamente batesse em meu nariz. Ficou vermelho, cocei, ardeu, doeu. Tive que armar esse ritual fajuto pra me aproximar de novo da dor, mesmo que só tenha sido efetiva na narina esquerda. Dor é a única que já me acompanhou que tenho absoluta certeza que não dá pra viver sem.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

simples sou eu

Um pé de maracujá-do-mato não é famoso por sua sombra, mesmo assim um banco de madeira foi montado debaixo de sua copa. Sentado, encarando o mundo estava um senhor míudo, acaboclado, de chapéu coco e bigodinho curto quase chapliniano. Quem olha. de longe presume o quão simples é e tem certeza do que faz ali. "Os assuntos não passam da impontualidade da chuva e da última briga no bar da frente, no máximo reclamou do inferno que o mundo virou, exaltou sua época e pediu uma branquinha". Quem o escuta, percebe o quão turvo é o pré-julgamento. Seu Florindo apenas observa com orgulho o seu reino. Chegou ali já tarde, nos seus cinquenta e poucos anos (trinta antes dessa descrição), depois de ter os dedos feridos e a cara exposta ao sol e à exploração dos patrões coronéis, se assumiu sem-terra e enfrentou a luta por um pedaço de chão. Observa agora onde essa via crucis lhe levou. Mostra sorridente o que conseguiu pros filhos, demarca o que é dele, ou que ao menos dizem que é. A casa menor da redondeza o abriga com a 'véa', o bar quem cuida é o seu menino mais velho, a casa de trás comporta o mais novo com inumeráveis netos e bisnetos, além dos outros descendentes que devem sua moradia a ele. Pronto, Seu Florindo já fez a sua parte, os filhos retribuem trabalhando enquanto ele se esbalda em seu trono com cheiro e gosto de maracujá.
- Simples sou eu.

só

Costumava andar só, de vez em quando. Quando andava só, sentia medo. De vez em quando sentia medo. Hoje eu tô só e não tenho medo. Nem o medo me acompanha mais de vez em quando.